quinta-feira, 31 de julho de 2014

Entrevista com Alfredo Junior e Cleiton Silva


Entrevista com:
Alfredo Junior e Cleiton Silva diretor e ator do grupo de Teatro Farinha Seca de Euclides da Cunha – BA



por Jamile Cruz. 



O que vocês entendem por materialidade e fisicalização?


Respostas:     

Alfredo: A todo tempo que estudamos o texto para montar o espetáculo pensamos de que forma física e visual a gente pode fazer uma leitura abrangente daquela obra e de que forma aproximar tanto o ator quanto a plateia de um resumo rápido da obra. Aí ficamos nessa busca de objetos, sendo ele mais um personagem. A gente vai envolvendo eles e nos envolvendo por eles, como se nosso corpo se completasse com a materialidade.
Cleiton: Alguns objetos são eleitos no inicio do processo para uma determinada investigação ou para o próprio espetáculo. Descartamos ou não ao longo do processo e através deles trabalhamos tanto ele dentro da narrativa quanto na relação com o ator. O próprio ator pode, também, trazer ou sugerir um objeto e torná-lo sagrado para ele dentro no processo. Tenho como exemplo a montagem Dom Quixote, onde a narrativa é permeada por historias de cavalarias e é através do cavalo que cada ator construiu uma postura, uma ideia que se tinha de cavalo, já com as informações e as imagens de cavalo que cada ator possuía, porém nunca como uma imitação fria, mas sim como esse cavalo se porta dentro do corpo de cada atuante. Depois da investigação chegamos a uma partitura e posteriormente a uma cena onde eles apresentavam o animal. Usamos também nesse processo objetos invisíveis, que estão na nossa realidade ou somente na própria imaginação não tendo leitura exata, mas que sempre é fiscalizado e usado como cenário ou no corpo do ator em algum gesto ou palavra.
Alfredo: Há um objeto muito marcante e bem físico no espetáculo Senhoras dos Afogados, que é o candeeiro e a malha, são objetos muito presentes e de grande utilidade, pois os mesmos não estão ali em vão. Trabalhamos muito com a ideia de que todos os objetos em cenas são utilizados e mesmo se não forem tocados eles tem uma historia ou um motivo para estarem ali.
Cleiton: A própria leitura de um texto dramático já é fisicalizar. À medida em que eu falo e meu espectador consegue visualizar a fisicalidade da palavra. Acho que ultrapassa a palavra quando ela é dita e não está ali morta em uma página. Ela é fisicalizada e transformada em um objeto e assim fica o jogo entre o ator e o espectador que pronuncia e ouve, sendo esse intervalo entre ator e espectador a criação de um objeto através da palavra, mesmo que não haja objeto.

Qual a relação dos alunos/atores e atores profissionais com o uso dessa materialidade?

Respostas:

 Alfredo: Quanto mais você utiliza o objeto e a imagem com o aluno mais próximo você o deixa ciente do assunto. O objeto é um recurso visual importantíssimo que nos auxilia muito.
                                  
                                    O trabalho como o texto é suficiente?


Resposta:
            
Cleiton: Não é suficiente, mas é muito importante, principalmente porque estamos falando tanto de iniciantes quanto de atores profissionais. E no caso do projeto Casa de Farinha que ministramos e buscamos fomentar a leitura, é importantíssimo, uma vez que o contato com o texto já tira aquela áurea de que a leitura é algo chato.


Como é a estética do trabalho de vocês no grupo e com os alunos no ensino formal e alternativo?


Respostas:
             
Alfredo: Na escola é preciso chegar com muitas propostas, é preciso sentir a vibração da turma e assim ir descobrindo o que mais funciona para chegar até eles. Fazer um diagnóstico rápido, cutucar e causar conflitos, pois fazem indagações que trazem resultados. Ás vezes é assustador levar logo de início um conflito, mas ele é positivo, dependendo muito da turma. A ideia é trazer o cotidiano de formas diferentes, buscar a atenção deles e colher deles para depois jogar em roda sem que eles percebam.
             A estética do grupo Farinha Seca é também o conflito e a busca constante do novo.
Cleiton: Como nós temos um projeto de iniciação teatral fora e que pertence, também, ao grupo, cada ator sendo diretor, traz para o grupo suas experiências como diretores. Isso já causa certo conflito ou estranhamento, pois aquilo que é ditado pelo diretor, ás vezes, não é acatado pelos atores que também são diretores. Isso deixa a identidade do grupo mais hibrida, com uma multiplicidade de vozes. Não dá para definir qual é a identidade do grupo. Cada um tem uma estética e todas elas juntas nem sempre são harmoniosas.






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