Entrevista com:
Alfredo Junior e
Cleiton Silva diretor e ator do grupo de Teatro Farinha Seca de Euclides da
Cunha – BA
por Jamile
Cruz.
O que vocês entendem por materialidade e fisicalização?
Respostas:
Alfredo: A todo
tempo que estudamos o texto para montar o espetáculo pensamos de que forma
física e visual a gente pode fazer uma leitura abrangente daquela obra e de que
forma aproximar tanto o ator quanto a plateia de um resumo rápido da obra. Aí
ficamos nessa busca de objetos, sendo ele mais um personagem. A gente vai
envolvendo eles e nos envolvendo por eles, como se nosso corpo se completasse
com a materialidade.
Cleiton: Alguns
objetos são eleitos no inicio do processo para uma determinada investigação ou
para o próprio espetáculo. Descartamos ou não ao longo do processo e através
deles trabalhamos tanto ele dentro da narrativa quanto na relação com o ator. O
próprio ator pode, também, trazer ou sugerir um objeto e torná-lo sagrado para
ele dentro no processo. Tenho como exemplo a montagem Dom Quixote, onde a
narrativa é permeada por historias de cavalarias e é através do cavalo que cada
ator construiu uma postura, uma ideia que se tinha de cavalo, já com as
informações e as imagens de cavalo que cada ator possuía, porém nunca como uma
imitação fria, mas sim como esse cavalo se porta dentro do corpo de cada
atuante. Depois da investigação chegamos a uma partitura e posteriormente a uma
cena onde eles apresentavam o animal. Usamos também nesse processo objetos
invisíveis, que estão na nossa realidade ou somente na própria imaginação não
tendo leitura exata, mas que sempre é fiscalizado e usado como cenário ou no
corpo do ator em algum gesto ou palavra.
Alfredo: Há um
objeto muito marcante e bem físico no espetáculo Senhoras dos Afogados, que é o candeeiro e a malha, são objetos
muito presentes e de grande utilidade, pois os mesmos não estão ali em vão.
Trabalhamos muito com a ideia de que todos os objetos em cenas são utilizados e
mesmo se não forem tocados eles tem uma historia ou um motivo para estarem ali.
Cleiton: A própria leitura de um texto
dramático já é fisicalizar. À medida em que eu falo e meu espectador consegue
visualizar a fisicalidade da palavra. Acho que ultrapassa a palavra quando ela
é dita e não está ali morta em uma página. Ela é fisicalizada e transformada em
um objeto e assim fica o jogo entre o ator e o espectador que pronuncia e ouve,
sendo esse intervalo entre ator e espectador a criação de um objeto através da
palavra, mesmo que não haja objeto.
Qual a
relação dos alunos/atores e atores profissionais com o uso dessa materialidade?
Respostas:
Alfredo: Quanto
mais você utiliza o objeto e a imagem com o aluno mais próximo você o deixa
ciente do assunto. O objeto é um recurso visual importantíssimo que nos auxilia
muito.
O trabalho
como o texto é suficiente?
Resposta:
Cleiton: Não é suficiente, mas é muito
importante, principalmente porque estamos falando tanto de iniciantes quanto de
atores profissionais. E no caso do projeto Casa de Farinha que ministramos e
buscamos fomentar a leitura, é importantíssimo, uma vez que o contato com o
texto já tira aquela áurea de que a leitura é algo chato.
Como é a
estética do trabalho de vocês no grupo e com os alunos no ensino formal e
alternativo?
Respostas:
Alfredo: Na escola é preciso chegar com
muitas propostas, é preciso sentir a vibração da turma e assim ir descobrindo o
que mais funciona para chegar até eles. Fazer um diagnóstico rápido, cutucar e
causar conflitos, pois fazem indagações que trazem resultados. Ás vezes é
assustador levar logo de início um conflito, mas ele é positivo, dependendo
muito da turma. A ideia é trazer o cotidiano de formas diferentes, buscar a
atenção deles e colher deles para depois jogar em roda sem que eles percebam.
A estética do grupo Farinha Seca é também o
conflito e a busca constante do novo.
Cleiton: Como nós
temos um projeto de iniciação teatral fora e que pertence, também, ao grupo,
cada ator sendo diretor, traz para o grupo suas experiências como diretores.
Isso já causa certo conflito ou estranhamento, pois aquilo que é ditado pelo
diretor, ás vezes, não é acatado pelos atores que também são diretores. Isso
deixa a identidade do grupo mais hibrida, com uma multiplicidade de vozes. Não
dá para definir qual é a identidade do grupo. Cada um tem uma estética e todas
elas juntas nem sempre são harmoniosas.