Entrevista com:
Luiz Antônio Junior
Diretor da Outra companhia de Teatro, grupo residente do Teatro Vila Velha.
por Fernanda Silva
1- O que você entende por materialidade?
Tem duas formas de pensar essa materialidade. A primeira seria a partir do que é palpável, físico, real, o concreto que eu ligo aos objetos, objetos cênicos, cenários, figurino e até instrumentos. E pensando materialidade enquanto matéria, enquanto elemento material eu tenho outros tipos de materialidade que seria um material mais sensorial, de estímulo, que seria a música que é algo que não é tão palpável mais que tem uma presença muito marcante. A luz também seria um material que não é palpável mais que existe.
2- Descreva um pouco sobre a estética de trabalho do seu grupo? Como vocês trabalham, desenvolvem o percurso criativo, no que acreditam? Como trabalham como essa materialidade no processo e na construção da cena? Como o grupo vê o uso de materialidade no processo criativo? Quais os objetivos?
Durante o processo criativo, para construir essa estética a gente busca trazer todos esses elementos. Ao invés de levantar o espetáculo e deixar que a figura da luz, do figurino, do cenário, da música venha interferir depois de algo pronto a gente quer criar tudo junto. Então a ideia é que o cenógrafo, o figurinista, o iluminador, ele esteja próximo. Da mesma forma que o elenco, ele vai sugerindo elementos, por exemplo essa questão da luz, ser um abaju, uma vela, um refletor que a gente começa a manipular... então isso já entra pra cena, como dramaturgia e como composição técnica da cena. Tudo vai sendo construído no processo junto. A gente tem pensado nos objetos pela via do multi-uso. O que não é uma coisa meramente ilustrativa, não compõe apenas um personagem, enfim... A ideia é que o objeto possa ser resignificado, que ele possa ser transformado em outra coisa. A gente tem se debruçado muito por uma estética que é da via do popular. Não do popular no sentido da cultura popular, mas do popular no sentido que está na rua, que está no povo, do que é ouvido, do que é dito e recontado milhões de vezes. No espetáculo ‘Mar me Quer’ fomos numa comunidade de pesca pra descobrir como aquelas pessoas que estão ali na beira mar, que tem contato com a pesca, com o manejo do barco, com o manejo da vela, da rede, como eles lidam com isso. A gente se apropria disso, dessa vivência e traz para o espetáculo cruzando com o texto.
3- O trabalho com o texto é suficiente no processo criativo?
O texto é mais um elemento, mais uma ferramenta, porém não é o eixo. A base da gente não é o texto. Talvez ele seja somente o ponto de partida. Nos dois últimos espetáculos a gente tinha o texto como estimulo para cena, porque recriávamos o texto a partir das cenas, recriávamos o espaço. O texto não limitava nosso processo, pelo contrário. O texto original do ‘Remendo remendó’ pra o que a gente faz hoje, é uma outra peça. Porque criamos música pra contar uma história de um determinado personagem, mudamos fala, cortou personagem, juntou... O ‘colcha de retalhos’ que é o espetáculo mais recente foi o processo inverso. A gente partiu de uma idéia, improvisou e depois criou o texto. A gente só conseguiu amarrar o texto depois da cena quase pronta. A dramaturgia foi construída a partir dos elementos que utilizávamos na cena. Por isso que o texto não é suficiente.
4- Essas materialidades traduzem o trabalho do grupo são indispensáveis no processo? Você acha importante o uso de materialidades em um percurso criativo? Por que?
Sim, por tudo que eu já disse anteriormente. Se não houvesse esse trabalho conjunto, onde os elementos são incluídos organicamente no processo, a peça não ia ter a nossa cara, não ia dizer o que a gente quer dizer. Hoje temos uma estética mais visual, mais musical. Começámos a investigar essa materialidade e assim começamos a desenhar uma identidade estética, uma identidade de linguagem.
5-O grupo considera o processo de montagem de caráter lúdico? Por que?
Sim, porque a gente parte muito do jogo, não aquela coisa muito marcada. Nosso lema é “Vamos fazer?” vamos jogar e a partir daí a gente vê o que dá. O tempo inteiro a gente tá jogando, montando um quebra cabeça. Inclui e tira elemento, muda as peças até achar uma coisa que nos satisfaça. É lúdico também porque a gente é muito ouvinte um do outro.