sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Entrevista com Dani Lima


Entrevistada:
Dani Lima, dançarina e coreógrafa, sobre a função de diferentes materialidades nos processos criativos da sua Cia de dança. Concedida ao Grupo de pesquisa CELULA PIBIC/UFBA, durante sua passagem pelo FIAC 2013 em Salvador-Ba.

por Alex Nascimento


O que você entende por materialidade?


Dani - Pergunta difícil esta...Materialidade...
Acho que tem haver é... Com a ideia da matéria da matéria envolvida numa certa coisa ,num objetivo, numa prática, é mais fácil falar concretamente ,por exemplo dança. Que é um conceito que usa muito os bailarinos, Ah! tá faltando materialidade aí, quando você está trabalhando com o corpo e buscando uma certa qualidade  de movimento e que não é  você  representar aquela qualidade de movimento.
É você trabalhar sobre uma potencia que já esta ali, seja ela, por exemplo ,trabalhar sobre o peso do seu corpo,uma materialidade concreta não é você representar  aquela qualidade do movimento
Fisicalizar?
É mas você pode fisicalizar de muitas formas, você pode  fica representando uma coisa, ressaltando aspectos simbólicos ou  mas você pode ressaltar a materialidade, uma coisa da própria matéria que constituía quilo, peso. tamanho, volume tamanho  textura,(Quer  ir lá pra dentro ?É com você.)E... corpo qualidade de movimento, textura áspero é macio, é pesado leve , amplo, é este lugar
E a relação dos objetos com o corpo?
Eu nem acho que a gente  neste trabalho explora a materialidade dos objetos não. Acho que a gente explora mais... No  trabalho dos verbos, ali  tem um trabalho de materialidade, cada verbo evoca a materialidade  de um movimento próprio, o verbo é uma ação mas o que ele  gera no corpo é esta qualidade aí, entende?
Tem uma aula que eu dou, que eu estou dando improvisação com objetos, que a gente trabalha  a qualidade  de movimento, tem a ver com isto trabalho  com vários objetos  para trabalhar a qualidade do movimento, a gente trabalha com vários objetos, peço a eles para trazerem, mas tendo em vista mais a materialidade do objeto do que  o seu significado ou  função ,então (pega uma garrafinha que estava na mesa no Cabaré dos novos do TVV),pega uma garrafinha da minha vó, ou isto serve para fazer não sei o que .Não, pegue  a  materialidade  do objeto, a forma, o peso o tamanho a textura, é isto que vamos trabalhar  e não se isto serve para botar flor ou beber água, então é a  materialidade disto aqui, e ai é...Ela é oca por dentro, é fria,tudo isto estamos falando de matéria, como esta ... Matéria  é dura é  fria tem uma forma ,comprida, é oca, tem um dentro,estamos falando disto, desta matéria e como ela se apresenta. E a gente poderia pegar e trabalhar isto, então a gente faz um trabalho  de olhos fechados no inicio...(alguém a cumprimenta)  trabalhamos  de olhos fechados, cada um traz o seu objeto e  vai passando de mão em mão, todo mundo de olhos fechados  para acessar estes lugares, em vez de ver os objetos, que a gente fica logo pensando ...já faz associações, pensa na  função, já vem história, associação, simbolismo e tudo mais, então para despertar esta materialidade vai passando de mão em mão para despertar, você  sente o peso, com a mão, você  não olha. Você sente os detalhes da superfície se é áspera ou não, você percebe esse...  se é oco ou não, mas de olhos fechados. 

2- Descreva um pouco sobre a estética de trabalho do seu grupo? Como vocês trabalham, desenvolvem o percurso criativo, no que acreditam? Como trabalham como essa materialidade no processo e na construção da cena? Como o grupo vê o uso de materialidade no processo criativo? Quais os objetivos?


Eu- Mais ou menos o que  você  está colocando, né?

Dani Lima - Sim/Não, neste trabalho aqui, são dois trabalhos .Você viu, o adulto ? È interessante  o adulto não tem um objeto  é só corpo e agente busca justamente a materialidade do corpo ,como esta matéria  è expressiva, todo o projeto dos 100 gestos,projeto de pensar  o quanto o corpo produz comunicação, sentido, significado, como produz um jeito, o jeito de estar no mundo, sempre é uma atitude em algum sentido, sempre é um projeto de mundo ,é uma bandeira seja ela qual for, mas produz pelo jeito como ele se organiza de pé, em postura, como ele olha, se ele olha mais, se olha menos, se olha  para fora ou para dentro, como ele se move, que peso, que qualidade desse movimento tem? Tem a ideia de um  gesto é uma coisa que da um colorido ao movimento. Se agente pensar assim Correr é uma ação...Este correr, mas cada vez que a gente corre é um gesto diferente ,correr atrás de um ônibus  é um gesto, fugir do ladrão é um OUTRO  correr, este correr está colorido com  o outro gesto de uma intenção ,você  tem outra motivação, não são as mesmas corridas.(*Sempre em relação com circunstâncias, relação social ?) Sempre a gente nunca faz nada que não seja  com relação a alguma  coisa a gente sempre faz gestos ,quem faz movimentos  são astros máquinas, repetem é um deslocamento  de lá para aqui a gente só faz gesto, mesmo quando não temos consciência mas temos uma intenção, nem que seja uma intenção...piscar não é um gesto. Piscar...é mecânico,(*Mas só em pensar ,já se torna um gesto),é um  movimento .Falando da estética só para fechar, nos 100 gestos, no espetáculo para adulto, a gente tenta trabalhar ,sem  objetos, mas como se o corpo fosse objeto de várias materialidades que o atravessam, é então um trabalho de lista ,são muitas materialidades diferentes que as  vezes eles não se comunicam, é cada um diferente. São várias materialidades expressivas  distintas, mas não tem objeto, mas poderia ter. É que a gente não partiu para objetos mas poderia é que o  objeto ajuda a acionar esta ideia  de materialidade,..... Tem um livro muito legal chamado  Artífice, do Richard Sennet que  fala também da relação do trabalho manual  com o trabalho com o objetos, como isto nos forma, ele vai ter uma teoria...Do jeito que você  pega uma coisa e sua  capacidade de largar um objeto, parece  uma coisa banal, todo  mundo larga e pega as coisas, tem um aporte psíquico ...Tem gente que tem dificuldade de largar as coisas, tem o que pega sem pegar direito, tem gente que pega mais, tem quem pega com delicadeza ,tem gente que pega com força e milhares de coisas.Ele vai tecer uma longa filosofia  aí sobre esta ideia ,na verdade a nossa relação com o mundo começa com objetos e o primeiro objeto é o seio da mãe ,que a gente quer chegar, pegar, que  morder ,que pegar e tal, e depois as coisas ,crianças tem muito isto. Tenho uma filha pequena e não entendia porque ela pegava e largava e eu achava que ela estava sacaneando(risos) ,criança gosta de entender a materialidade ali oh ! “Se eu largar o negócio” ,..que a gravidade para a gente está compreendida para criança não. Que aquilo ali, eu largo e cai, é esta ideia de largar ,que eu tenho o poder sobre o objeto que ele cai, ele quebra ,então fui eu quem fez isto. E isto é a primeira relação com as coisas. Tem muitas histórias tão legais.(Tem que ficar com ele, o celular, assim, pode não está gravando nada já pensou)Tem um cara Frances ,trabalha com analise de movimento .Ele vaia falar de Gestos ele fala como a nossa formação anatômica muscular está relacionada a nossa vida psíquica  e isto tudo relacionada como a gente conhece e experiência  o mundo, dentro do mundo as pessoas os  objetos, as coisas. Ele fala por exemplo  que toda musculatura das costas ,dos ombros se desenvolve na pessoa  no momento em que  a criança esta passando pela fase de aprender a dizer não, o dos dois  anos, que é o momento em que ela se separa do mundo, ela já não é uma coisa igual ,ela percebe o objeto  como o outro, ela se separa e empurra ,então  o ato de empurrar desenvolve esta musculatura e há também  o ato de se tornar individuo. Quando você diz não, você diz eu não quero!  Eu acho bem interessante, assim com tem gente que tem uma musculatura muito forte, que tem uma negação muito trabalhada, e outras mais frágil, uma negação menos trabalhada, está tudo misturado na nossa formação, o objeto aí então como pensar o objeto aí, é só o objeto? Na nossa formação o objeto é só objeto, é livro que caiu agora, mas é gente também, no sentido, objeto é o que não é o sujeito, é o outro .



Como o grupo vê o uso de materialidade no processo criativo? Quais os objetivos?
Porque em fim, acho que sim mais talvez que no teatro, que é matéria ,você trabalha  o treinamento de dança, muitas vezes, não sempre  você fica representando coisas, e em dança contemporânea é o entendimento disto, né? Que é o peso, volume, intensidade, o fluxo, vão criando uma forma expressiva então você tem que dominar as qualidades do corpo, as diferentes qualidades expressivas que você pode gerar com seu corpo para poder ter um leque grande de expressão. Neste trabalho que você vai ver, esta palavra aparecia muito, você está indo... A gente trabalha com referencia certo? Carmem Miranda, tem uma menina que trabalha sobre o gestual de Carmem Miranda, como não fazer uma parodia da Carmem, não é ideia fazer um a parodia a ideia é tentar ver naquela materialidade  naquele jeito de organizar o corpo ,no jogo de ombro, na cintura alta que se desloca, nos primórdios do samba que estão ali. Aquele jeito, aquele sorriso, aquela mascara, aquele jeito de usar os braços e a cabeça, como o corpo se organiza ali, aquilo é  a materialidade daquele corpo e trabalhar sobre isto, é claro que você está se alimentando  sobre a imagem da Carmem o desejo ou  o impulso de ..representar e parodia-la é enorme. A gente faz isto o tempo inteiro, mas aí  a gente fica tentando focar   na materialidade que tem ali, e trabalhar em cima disto, porque é uma fronteira muuuiiiiiiiiito (dando ênfase) delicada entre a representação, que  a gente chama de representação, porque tudo é representação mas assim... Fazer a parodia, a representação e você está envolvido na materialidade daquele negócio ali ,é quase que impossível que uma coisa não alimente a outra, é impossível, porque você fica naquele imaginário...É que o entendimento não é  por aqui(mente)..Estava conversando uma coisa que tem a ver com este trabalho, você conhece uma pessoa muito, você conhece o jeito dela ,você se relaciona muito  e vai falar dela e você vai falar (-Ai ele me falou assim ..Traralálá) você faz igual ao jeito desta pessoa, você está mimetizando  materialidade daquele corpo.. é um jeito de corpo, com emissão vocal.com jeito de se colocar aquilo tudo junto ,( me lembra um a música uma coisa sua que ficou em mim) mas é mas o trabalho dos cem gestos é sobre isto, as coisas que ficaram nas pessoas como estas matérias corporais que ficaram nas pessoas.. e  é isto .




Essas materialidades traduzem o trabalho do grupo e são indispensáveis no processo?
Sim


Você acha importante o uso de materialidades em um percurso criativo? Por que?
Depende do processo, depende de onde quer chegar ,nos cem gestos  por exemplo praticamente a gente não usou  objeto, a gente trabalhou sobre a matéria corpo, aí e olhando isto o jeito daquele corpo se mover, mas já trabalhei muito com objetos, já trabalhei com objetos feitos por uma artista plástica que eram caixas de madeiras com buracos que você enfiava as mãos, os braços a perna os olhos o nariz e  ia produzindo  recorte(Qual? ) falam  as partes do todo? Um trabalho que foi pra Salvador (onde acho?). Acho que em três trechos no meu site.
O grupo considera o processo de montagem de caráter lúdico? Por que?
Trabalho sempre ,na verdade nem coloco como categoria, trabalho sempre com jogos com brincadeira e acho que ajuda a acionar lugares de memória, uma via mais viva pro ator pro bailarino ,que não é uma via cerebral de construção  que ele  acha que é, mas como ele vive aquilo ali, como ele sente, como ele adapta para ele, então eu sempre trabalho com  processo lúdicos, eu acho importante para qualquer processo criativo, poder brincar mesmo.









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